Não posso ser a única… em psicoterapia.

As razões que me levaram à psicoterapia… Podia estar aqui a enumerá-las como quem faz um artigo sobre as praias da Arrábida, mas não são 5, nem 10. Na verdade, nem eu sei bem quantas são, pois nunca tinha pensado a sério sobre isto… Mas vamos descobri-las juntas(os)!

A 15 de janeiro de 2015 entrei no consultório pela primeira vez, convicta de que o problema era o meu ex-namorado ter acabado a relação e eu me ter apercebido de que não tinha ninguém. É claro que tinha, mas não era isso que eu sentia. E, ao perder um pouco de tempo a pensar nesta questão da solidão, percebi que isso sempre esteve presente em mim. Que os problemas que eu tinha só os via em mim, mais ninguém. Que as coisas que eu sentia era só eu que as sentia, mais ninguém. Que os meus pensamentos eram unicamente meus e mais ninguém pensava aquele tipo de coisas. E por aí fora. Seguindo a regra (estúpida) de “se vês uma coisa a ter um resultado igual em muita gente, é porque não devem ser as pessoas a estar mal, mas sim o que provocou esses resultados”, a conclusão acabou por ser inevitável: se mais ninguém pensa estas coisas, sente estas coisas ou vê estas coisas como problemas, então sou eu que estou mal. E esse prognóstico foi uma verdade minha durante grande parte da minha vida, até há bem pouco tempo.

Demorei dois anos a chegar à raiz. Demorei dois anos para perceber que não podia continuar a ignorar o que realmente estava mal. Uma relação tóxica com uma pessoa próxima que não dá simplesmente para virar costas e cortar da minha vida. Uma relação tóxica, que me retirou de tal maneira coisas minhas e de mim, que eu realmente acreditei que estava sozinha e aquela pessoa era a única que eu tinha.  Uma relação e vivência tóxicas, que me deixaram marcas que ainda hoje duvido se serão reparáveis.

Durante estes quatro anos de psicoterapia, depois de entender o que verdadeiramente estava mal, consegui reclamar o meu espaço pessoal como meu, só meu! O meu pensamento, as minhas ideias, os meus desejos, as minhas vontades, as minhas ambições, as minhas opiniões… Afinal era livre e podia ter essas coisas como minhas, só minhas. Decidir por mim própria a minha vida. E responsabilizar-me por isso. Ter projetos só meus, de acordo com objetivos só meus e de mais ninguém. Descobrir do que gosto de fazer e assumir do que não gosto. Parecem coisas triviais, mas para quem nunca teve espaço para as ter, é todo um mundo novo.

Durante este tempo, comecei ainda a fazer outra coisa. Perdi o medo da solidão, o medo de ser eu o problema, o medo de ser incompreendida e comecei a partilhar a minha história. Com amigos, com família e com quem estivesse interessado em ouvir ou tivesse também alguma coisa a partilhar. E o que descobri foi incrível: toda a gente tem uma história para contar. Toda a gente tem as suas cicatrizes e mais do que as que eu pensava serem possíveis eram semelhantes à minha. Não na situação em si, mas nas marcas que deixaram. E ao perceber isto, percebi também que há muita gente que fica com essas marcas só para si, muitas vezes por medo de uma certa incompreensão ou simplesmente por falta de identificação com alguém ou alguma sensação que lhes é familiar, mesmo que seja um mero estranho.

 

Mas eu quero que saibas que a partir do momento em que aceitas todos os capítulos da nossa história, começas a assumi-los como verdadeiramente teus, percebes que podes fazer o que quiseres com eles e, acima de tudo, não tiveres medo disso, há todo um mundo a descobrir! Do teu e do real.

E é esse mundo, da minha perspetiva, que eu quero partilhar contigo. Os momentos bons e maus. Tudo o que faz parte da vida normal de um simples ser humano, da maneira mais verdadeira possível. E, com sorte, poder chegar a ti e que te possas identificar comigo ou com a minha história e não sintas a solidão que eu senti por tanto tempo. Porque não estás sozinha(o)!

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